"Esses
100 quilômetros valeram mais do que todos os Rallyes em
que eu corri" – comentava Eduardo Gomes, o Dedê,
depois de ter sido proclamado vencedor geral do RALLYE PIRELLI
- CAMPOS DO JORDÃO, o primeiro realizado no Brasil de
acordo com a regulamentação da Federação
Internacional do Automóvel - F.I.A.

O
Fiat 147 N° 444 do Grupo I – Classe A (Standard) da
dupla paulista Eduardo Gomes/Luis Cagnoni da Equipe Milano /Resil
foi o vencedor do RALLYE PIRELLI – CAMPOS DO JORDÃO
Foi
essa a primeira experiência feita pelo Automóvel
Clube Paulista - A.C.P no sentido de trazer para o Brasil uma
prova internacional de Rallye, o que deverá se repetir
em 1979. A prova foi disputada nos dias 5 e 6, primeiro fim
de semana do mês de agosto de 1978.
Há cerca de dois anos (em 1976) os Rallyes de Regularidade
passaram por uma mudança que os tornaram excessivamente
velozes para o tipo de modalidade, mas ainda lentos para serem
considerados Rallyes do tipo adotado na Europa, aqui chamado
Rallye F.I.A.
Um
dos maiores entusiastas da idéia do Rallye Velocidade
era o piloto Roberto Rocha, o mais experiente organizador paulista
de Rallyes de Regularidade, mas sem “Know How” de
provas do tipo F.I.A., nas quais o mais importante para um bom
resultado dividi-se entre habilidade do piloto, os avisos certos
do navegador e a resistência do carro. Porém,
com a chegada ao Brasil de vários desportistas portugueses
apaixonados pelos Rallyes de Velocidade, a modalidade adotada
em Portugal, a situação começou a mudar.
Roberto Rocha então se ligou a Francisco Santos, misto
de jornalista, publicitário e organizador, e ambos começaram
há dois anos, a trabalhar em um Rallye Internacional,
tipo F.I.A, com mil quilômetros de percurso.
Porém, o corte de combustível para as competições
abalou também a viabilidade desta prova mas, ao invés
de desistirem, os dois decidiram adaptar a prova às possibilidades
que existiam no momento, ou seja, um máximo de 100 quilômetros.
Com isso, não seria possível atrair participantes
estrangeiros, e a prova ganhou caráter nacional.
A
ORGANIZAÇÃO
Contando
com o apoio do Automóvel Clube Paulista- A.C.P e da Federação
Paulista de Automobilismo – F.P.A, os dois organizadores
saíram em busca de um patrocinador. A Pneus Pirelli,
tradicionalmente ligada aos Rallyes, aceitou o patrocínio
ante a possibilidade de um bom retorno publicitário para
seu investimento.
Francisco Santos e Roberto Rocha decidiram então realizar
a prova em Campos do Jordão e não foram poucos
os motivos que tinham para esta escolha. Por ser uma cidade
de estância climática - hidromineral, essencialmente
turística, adaptava-se bem ao tipo de evento, também
intrinsecamente ligado ao turismo. Também oferecia uma
estrutura hoteleira coerente com a competição,
e a topografia de cidade serrana (1628 metros de altitude) é
ideal para Rallyes de velocidade.
Outros aspectos também a apontavam como o melhor lugar,
como o fato de estar a meio caminho entre Rio de Janeiro (303
km) e São Paulo (181 Km) e de haver maiores possibilidades
de fechar algumas estradas sem perturbar o tráfego, já
que para cada estrada há muitas variantes, quase nas
mesmas condições.
Foram então feitos, com muita antecedência, os
contatos com o Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN,
em Brasília, que se mostrou pronto a dar o apoio necessário
e com o Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo,
sem a qual não seria possível nem se pensar em
fechar uma estrada. A Policia Militar cedeu, para o dia da competição,
nada menos de 150 soldados para serem espalhados, pelos 60 quilômetros
do percurso, o que significava um guarda a quase cada 500 metros.
Deve-se
registrar, que a organização esteve perfeita,
sem um único senão. Todos os cuidados, visando
à segurança das duplas inscritas, foram tomados.
No dia da prova, havia vários carros rádio patrulha
e quatro viaturas leves do Corpo de Bombeiros além de
um carro guincho. No início de cada trecho cronometrado
estava uma ambulância pronta para levar ao Hospital (Santa
Casa) de Campos do Jordão, onde havia pessoal de plantão
especialmente para a competição, os eventuais
acidentados, o que, felizmente, não foi necessário.Toda
a estrutura de segurança se localizava nos pontos estratégicos
do roteiro.
Outra colaboração extremamente valiosa foi a dos
Clubes de PX, quase 60 radioamadores da Faixa do Cidadão
de Campos do Jordão e Pindamonhangaba, que mantinham
contato continuo entre si e com os carros de Roberto Rocha e
Francisco Santos, ambos equipados com rádios, assim como
o centro de organização da prova localizado no
Tênis Clube de Campos do Jordão.
O próprio delegado de Polícia de Pindamonhangaba,
Sr. Bitencourt estava com seu Chevrolet Opala no Pico do Itapeva,
com dois rádios instalados no carro, fazendo quase que
um “meio-de-campo” entre os diversos setores, um
PX e um SSB –Single Side Band de longo alcance. Falava
em um canal com determinado posto e na outra mão tinha
outro microfone em que já retransmitia ou procurava determinada
pessoa em um trabalho incessante o dia inteiro
Assim, era imediato o contato e as providências com os
setores necessários, em caso de acidente.
Felizmente, nada de mais grave ocorreu, limitando-se os danos
a materiais, por choques contra barrancos e ou pedras. O maior
sucesso do evento foi sua repercussão na imprensa, noticias
publicadas em um espaço total avaliado em US$ 144.200,00.
A PROVA
Os 100 quilômetros da prova
foram percorridos em estradas de terra e asfalto, com oito trechos
(quatro na ida - 1° etapa, quatro na volta - 2° etapa)
onde a velocidade era livre, contra o relógio. Justamente
nesses trechos é que os Rallyes desse tipo costumam serem
decididos, valendo então a potência e a resistência
do carro, e a perícia do piloto, para perder o menor
tempo possível.
Inscreveram-se
42 carros e largaram 37.
Os carros foram divididos em:
Grupo I – Veículos Sem Preparação
– “Standard” (equivalente ao Grupo I da F.I.A
- Veículos de Turismo de Série) divididos em três
classes de cilindrada:
Classe A – até 1300 cm³
Classe B – de 1301 cm³ até 1600 cm³
Classe C – acima de 1601 cm³
Grupo II - Veículos Com
Preparação Livre divididos em duas classes de
cilindrada:
Classe E – até 1300 cm³
Classe F – de 1301 cm³ a 2000 cm³
PRÓLOGO
– PROVA COMPLEMENTAR NÚMERO UM
O
sábado amanheceu límpido em Campos do Jordão,
apenas muito frio, aponto de ser necessário às
sete horas da manhã, jogar água quente nos vidros
dos carros a fim de tirar o gelo.
Como a Prova Complementar N° 1, que serviria para definição
da ordem de largada, teria inicio às nove horas, as estradas
e acessos que levam ao Pico do Itapeva com 1950 metros de altitude,
seriam fechadas as sete e meia isolando o roteiro. Com isto
à movimentação iniciou cedo, com o público
procurando os melhores locais para assistir a passagem dos concorrentes.
Uma hora antes do inicio, dois carros com dirigentes do Rallye
percorreram todo o trecho, verificando se ninguém, seja
da imprensa ou espectador, estacionaram seu veículo em
local que poderia oferecer riscos aos participantes.
E somente depois da passagem do último concorrente, este
mesmo carro percorria com o Diretor da Prova, novamente o roteiro,
e só após isso eram liberadas as estradas.
Tal procedimento seria realizado em todas as outras três
etapas, pois o intervalo entre uma e outra era de algumas horas.
A
classificação desta Prova Complementar veio confirmar
que a prova poderia ser decidida entre dois volantes portugueses,
com carros de preparação livre: Mário Figueiredo
tendo como navegador o paulista José Ivo Leite e Antônio
Martorell navegado por seu irmão Ricardo Martorell. Como
os dois pilotos são rivais desde Portugal, têm
experiência neste tipo de Rallye e contavam com carros
potentes, só mesmo se ambos quebrassem, os resultados
seriam diferentes.
O melhor tempo foi conseguido pelo Volkswagen Passat TS de 1800
cm³ (Grupo II - Classe F) N° 402 da Equipe Sorana de
Mário Figueiredo/José Ivo de Souza Leite com 9
minutos e 34 segundos sendo o primeiro carro a largar na etapa
inicial.
Em segundo ficou o Dodge Polara (Grupo II – Classe F)
do Polara Team de Antônio Martorell/Ricardo Martorell
com 9 minutos e 43 segundos.
A dupla gaúcha Ernesto Alexandre
Farina/Carlos Alberto Farina com um Volkswagen Passat TS N°
213 da Equipe Gaúcha Car fez o quinto melhor tempo na
geral (9minutos e 54 segundos), mas ficou em primeiro no Grupo
I - Classe B.

Ernesto
Farina/Carlos Farina durante a Prova Complementar Número
Um, quando marcaram o quinto melhor tempo na geral e primeiro
no Grupo I – Classe B.
Os companheiros de Equipe dos primos
Farina, Marcelo Aiquel/Silvio Klein ficaram em oitavo lugar
na geral e em terceiro no Grupo I – Classe B com o tempo
de 10 minutos e 09 segundos.

Aiquel/Klein
durante a disputa da Prova Complementar Número Um que
definia a ordem de largada para a 1° Etapa do Rallye.
A
outra dupla da Equipe Gaúcha Car formada por Jorge Raimundo
Fleck/Ronaldo Fróes Monteiro com o Volkswagen Passat
TS N° 212 (Grupo I – Classe B), apesar de serem apontados
como um dos favoritos, não teve muita sorte nesta Primeira
Prova Complementar.
Com apenas oito quilômetros disputados, quase ao final
da prova de classificação, quebrou a ponta de
eixo traseira direita após o choque com uma pedra, em
plena “curva da ferradura” justamente no local em
que se encontrava a imprensa convidada. O carro perdeu a roda
traseira direita e prosseguiu por mais alguns metros, apenas
em três rodas.
Como esta prova era eliminatória, mesmo sendo de imediato
trocado todo o eixo traseiro a dupla não pode largar
na primeira etapa.
Outros quatro carros foram eliminados nesta Primeira Prova Complementar.

Uma foto de dar prêmio: momento exato em que a
roda começa a separar-se do carro de Fleck/Monteiro.

Aqui a roda corre livre em direção ao
barranco, com o eixo arrastando no chão.
Em
breve Parte 2 e 3.
Pesquisa
e Edição: Renato Pastro
Edição de Imagens: Luciane Goecke
Fontes:
Jornal El Diario (Uruguai)
Jornal La Mañana (Uruguai)
Correio do Povo
O Globo
Arquivo Histórico do CPR